Desbertolezamento

8 de março de 2017! É avançado o século 21 e o desbertolezamento das mulheres, pelo qual tanto luto, ainda parece distante. Ou não, talvez! 

Outro dia, na rua, encontrei com uma mulher, cujo rosto me pareceu familiar, mas de imediato, não soube quem era. Ela sorriu pra mim, um sorriso de quem me conhecia, e eu sorri de volta. Ela veio até mim, me abraçou, de forma afetuosa, apertada, demorada. Eu pensei: ela realmente me conhece. Correspondi ao abraço, até porque era um abraço muito gostoso, muito verdadeiro! Passado um tempo, ela suspirou fundo e me disse: "você não está se lembrando de mim, mas eu logo que bati o olho em você reconheci. Eu fazia suas unhas, há muito tempo, você fazia as unhas comigo. Eu tinha muita vontade de te reencontrar. Até falei pra uma amiga minha que um dia eu te encontrava. E encontrei mesmo". Então, eu fui me recordando dela, aos poucos, fui me lembrando daquele rosto, daqueles olhos vivos, aquele sorriso. Ela continuou: "eu sigo você no facebook, adoro tudo que você escreve, mas nunca tive coragem de enviar convite pra você me adicionar" (sorriu). Mas, por quê? Perguntei. "Sei lá, bobagem da gente, né", respondeu ela rindo muito, eu também sorri. Ela continuou vivazmente: "eu queria muito te contar como você me salvou, você lembra?!" Eu?! Fiquei meio perplexa. "Sim, um dia no salão, você chegou, eu estava chorando, ai meu Deus, como era humilhada e nem sabia, eu vivia humilhada e achava que tava certo, que tava tudo certo. Aí, eu lá, chorando e fazendo a unha de uma cliente, e você me perguntou o que tava acontecendo, eu te contei, ali, na frente de todo mundo. Foi aí que você me salvou". E o que era? Perguntei. Eu realmente não me lembro. Ela ficou um pouco melancólica e começou a narrar sua história:
Eu, direto, pegava meu marido no bar com os amigos dele, bebendo e rindo de mim, fazendo chacota, falando pros amigo dele que eu era ruim na cama, que ele num gostava, sabe, de mim, na cama, por isso que ele buscava mulher na rua, porque eu era larga (baixando o tom de voz, olhando pros lados, com expressão triste e constrangida no rosto, os olhos se encheram de lágrimas), sabe, assim, larga, entende? (meneei a cabeça, indicando que entendia o que ela queria dizer). Pois é, eu já não aguentava mais ele falar isso pra aquela homaiada no bar e todo mundo ficar rindo de mim. Já tinha vergonha até de sair de casa, porque eu achava que todo mundo que me via sabia daquilo e ia rir de mim, pensando, olha lá, lá vem a larga. Quando eu te contei isso, você me disse: menina, deixa de ser boba, pensa o contrário, ele tá disfarçando pra te enganar e você não perceber, não é você que é largar, o p. dele que é fino. Eu regalei os olhos, meu Deus, será?! E você falou com tanta certeza que era, parecia até que você conhecia ele. Eu fiquei pensando, auai, ela é estudada, é professora e tá falando, deve ser verdade. Aí, no domingo, eu fui no bar e ele tava lá com os amigos dele bebendo e quando me viu foi logo zombando de mim, com essa história de larga, e todo mundo riu, achando bão. Eu olhei ele bem dentro dos olhos, parecia que num tinha mais ninguém ali, olhei bem firme e falei, num tempo só, eu num sou larga coisa nenhuma, seu p. é que é fino, se fosse grosso, como p. de homem, não sobrava. Engraçado, a graça acabou, todo mundo calou e eu acordei no Cais do bairro, toda dolorida, cheia de curativo.
ilustração Manara Em: <http://xicosa.folha.blog.uol.com.br/>.


Gente do céu! Eu terminei de ouvir essa parte com o corpo mole, queria que o chão se abrisse e me engolisse. Olha o tamanho da minha irresponsabilidade, o tanto que eu fui inconsequente. Nesse momento, já me lembrava em detalhes daquela mulher, realmente, ela sumiu do salão, ninguém contou porque, depois, eu me mudei de bairro, nunca mais voltei ao salão, não tive mais notícia dela. Enfim, tudo o que eu queria era sumir dali. Mas, ela continuou.
Olha, quando eu cheguei em casa, acredita que o vagabundo tava lá?! Pois tava! Parecendo um sapo de tão inchado. Eu olhei pra ele e falei bem assim: o que que ocê tá fazen’aqui? Ele respondeu, sem nem me olhar: eu moro aqui, uai, esqueceu? Falei: Não, quem esqueceu foi você, você que num tá lembrando quem é que paga cada centavo das contas dessa casa. Por acaso, você paga alguma conta aqui? Quando foi a última vez que você trouxe algum dinheiro pra dentro de casa? Eu nem me lembro. Sabe quem paga as suas roupas, os seus sapatos e as cachaças que você bebe no bar, rindo de mim, fazendo chacota de mim no bar? Pois é, acho que quem esqueceu de tudo aqui foi você. Fiz ele saí de casa naquele dia, naquela hora. Ah, sê besta, sô, além de viver às minhas custas, até a cachaça dele era eu que pagava, fazendo unha por unha das clientes, que eu num tinha estudo, num tinha renda, num nasci rica, ainda ria de mim e querer me bater do jeito que ele me bateu... Não, sô, tá pra nascer o macho que vai me bater e ficar por isso mesmo. Lá no hospital mesmo a delegada me atendeu e me contou da Maria da Penha. Denunciei ele. Denunciei e tá denunciado! Agora, eu tô é bem. Meu dinheiro dá e sobra, tô estudando, namorando (rindo), tô muito bem! E eu agradeço muito a você que me abriu o olho. Mas, e você, como está? Eu me lembro que seu casamento também era muito ruim, você vivia doente, triste, você tá tão bonita! Tá tudo bem, né?

(Nossa! Que alívio! Ufa!) Sim, meu casamento era péssimo! Consegui me separar, já tem sete anos que me separei, estou muito bem. Ela me perguntou se eu tinha me casado novamente, respondi que não, de jeito nenhum. “Agora, só tico tico no fubá?” (rindo), perguntou ela e eu respondi afirmativamente. Nós nos abraçamos novamente, um abraço diferente, choramos uma no ombro da outra, um choro de entrega, de cumplicidade, de afetividade, um abraço demorado de despedida e de gratidão, de sincera gratidão. Ela se foi, leve, suave e serena. Eu fiquei ali, pensando, refletindo sobre nosso desbertolezamento mútuo.



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