Quaresma: "os dias grandes"

Quaresmeira roxa
Quaresma deriva de quarenta (40), um número simbólico na bíblia, o livro sagrado dos cristãos, e representa um período contado em dias ou anos, que marca um acontecimento importante. Por exemplo: o dilúvio (a limpeza do mundo) durou 40 dias, Moisés passou 40 dias no Monte Sinai, Jesus ficou 40 dias no deserto antes de iniciar sua missão, o povo de Israel peregrinou por 40 anos no deserto etc. Quaresma, como a conhecemos atualmente, é a designação do período de 40 dias que antecede a principal celebração do cristianismo: a Páscoa (passagem), a ressurreição de Jesus Cristo, celebrada desde o século IV. A quaresma começa na quarta-feira (quarto dia) de cinzas, fim do carnaval, a festa da carne, e termina no domingo de ramos, penúltimo domingo dos 40 dias (5º ou 6º domingo), um domingo antes do domingo de páscoa. As cinzas da quarta-feira de cinzas simbolizam a mortalidade do corpo e a imortalidade da alma. Durante a quaresma, a igreja se cobre de roxo, a cor do sofrimento, da dor e da tristeza, no cristianismo. Por toda essa simbologia e teia de significação ritual, na minha infância, a quaresma era um período de temor. A semana santa, mais temida ainda, era chamada de "os dias grandes". Como era longa a quaresma e como eram longos os dias da semana santa! Na minha cabeça, a semana santa era maior que toda a quaresma. 

Durante a quaresma, quem tivesse criança pagã em casa não podia apagar a lamparina à noite. Se a criança pagã ficasse no escuro, o lobisomem ou capeta a carregava. Nessas casas, a lamparina passava a noite toda acesa, durante a quaresma inteira. Então, quando víamos a casa quietinha, todo mundo dormindo e luz acesa, já sabíamos: deixaram chegar a quaresma sem batizar algum filho. As famílias mineiras diziam: isso é coisa de baiano, baiano não importa com os sacramentos da igreja, deixa os filhos correr risco de ser carregado pelo lobisomem. As famílias baianas diziam: deus é deus, é mais que igreja, padre num é deus! Mesmo assim, deixavam a lamparina acesa, vai entender. E seguiam, mineiros e baianos, de quaresma em quaresma, um apontando o dedo pro outro. Na minha casa, era metade de um e metade de outro, então, na quaresma, havia sempre lamparina acesa e briga. 

Entre nós, a meninada, independente de ser mineiro ou baiano, não sabíamos o que era isso, era só medo! Tudo que fazíamos na quaresma atraía alguma coisa muito ruim, era só esperar que o castigo vinha do céu, porque deus, ah, esse só perdoava os adultos; criança haveria de ser tudo massacrada por deus, no sábado de aleluia, igual ao Judas. Os adultos nos assustavam com deus e com o diabo, do mesmo jeito e na mesma medida. Para mim, não havia diferença entre deus e o diabo. Eu tinha medo dos dois, do mesmo tanto que tinha medo do pai e da mãe. Na verdade, nem deus nem o diabo nunca me bateram nem me maltrataram como o pai e a mãe fizeram, então, acho que até o diabo tava na vantagem comigo. Agora, né! Porque na infância, era só medo, de tudo e de todos. 

Depois, quando finalmente parece que ia acabar a interminável quaresma, chegava a semana santa, "os dias grandes", dias maiores que a quaresma inteira. Quem se chamasse Maria não podia pentear o cabelo, os homens não faziam barba, a casa não era varrida, não podia maltratar criação, não se abatia cria nem para comer, não podia falar alto, xingar, então... nem pensar! Aí, começavam também as promessas (ou ameaças?!), afinal, tudo era proibido: Espeeera! Deixa só a leluia chegar! Quero tirar o couro docêis na leluia... Vou tirá a leluia docêis. A raiva do mundo, armazenada durante quarenta dias, era descarregada no mais fraco: as crianças, os/as filhos/as. Os homens iam tirar a aleluia nas esbórnias, nos cabarés, o que aumentava ainda mais o ódio das mulheres. Sobrava pra quem? Pros mais fracos: os/as filhos/as. Ah, meu Deus! Os dias grandes eram grandes e temidos, mas quando chegava a aleluia, nosso desejo é que os dias grandes não tivessem terminado.       

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