Então,
geral decidiu
que cabeça de mulher preta
é só pra carregar lata d'água
e o senhor branco acha
que cabeça de mulher preta é só pra levar pancada
a sinhá falou
que mulher preta só serve pra remexer as cadeiras
mas, então,
virou verdade!
cabeça de mulher preta num é pra pensar
a preta trabalha
entra no espaço,
mas não ocupa o lugar
tá lá,
mas não fala,
se fala
ninguém escuta,
se alguém deixa falar,
ninguém deixa escutar
é fala de preta,
tá desviado,
num é presse caminho,
tá errado
ajeita, num tem jeito,
 ajeita, endereita,
conserta, tem jeito!
Mulher preta tem cabeça pra carregar lata d'água e pra levar pancada
Mulher preta não pensa!

Receita de felicidade

Se tiver se sentindo deprimid@
e precisando desabafar
pegue uma neguinha atrevida,
aquela que não conhece o seu lugar,
ponha-a num tronco clandestino,
prenda-lhe firmes as mãos e os pés
e açoite-lhe a alma até sangrar

Não se esqueça de lhe tapar a boca
para abafar os gemidos
o que ninguém vê nem ouve
nunca foi acontecido
Ah! Isso vai lhe fazer tão bem!
É melhor que prozac ou ritalina.
Depois, é só se deitar
e dormir o sono d@s just@s
para descansad@ celebrar o 13 de Maio!

Desbertolezamento

8 de março de 2017! É avançado o século 21 e o desbertolezamento das mulheres, pelo qual tanto luto, ainda parece distante. Ou não, talvez! 

Outro dia, na rua, encontrei com uma mulher, cujo rosto me pareceu familiar, mas de imediato, não soube quem era. Ela sorriu pra mim, um sorriso de quem me conhecia, e eu sorri de volta. Ela veio até mim, me abraçou, de forma afetuosa, apertada, demorada. Eu pensei: ela realmente me conhece. Correspondi ao abraço, até porque era um abraço muito gostoso, muito verdadeiro! Passado um tempo, ela suspirou fundo e me disse: "você não está se lembrando de mim, mas eu logo que bati o olho em você reconheci. Eu fazia suas unhas, há muito tempo, você fazia as unhas comigo. Eu tinha muita vontade de te reencontrar. Até falei pra uma amiga minha que um dia eu te encontrava. E encontrei mesmo". Então, eu fui me recordando dela, aos poucos, fui me lembrando daquele rosto, daqueles olhos vivos, aquele sorriso. Ela continuou: "eu sigo você no facebook, adoro tudo que você escreve, mas nunca tive coragem de enviar convite pra você me adicionar" (sorriu). Mas, por quê? Perguntei. "Sei lá, bobagem da gente, né", respondeu ela rindo muito, eu também sorri. Ela continuou vivazmente: "eu queria muito te contar como você me salvou, você lembra?!" Eu?! Fiquei meio perplexa. "Sim, um dia no salão, você chegou, eu estava chorando, ai meu Deus, como era humilhada e nem sabia, eu vivia humilhada e achava que tava certo, que tava tudo certo. Aí, eu lá, chorando e fazendo a unha de uma cliente, e você me perguntou o que tava acontecendo, eu te contei, ali, na frente de todo mundo. Foi aí que você me salvou". E o que era? Perguntei. Eu realmente não me lembro. Ela ficou um pouco melancólica e começou a narrar sua história:
Eu, direto, pegava meu marido no bar com os amigos dele, bebendo e rindo de mim, fazendo chacota, falando pros amigo dele que eu era ruim na cama, que ele num gostava, sabe, de mim, na cama, por isso que ele buscava mulher na rua, porque eu era larga (baixando o tom de voz, olhando pros lados, com expressão triste e constrangida no rosto, os olhos se encheram de lágrimas), sabe, assim, larga, entende? (meneei a cabeça, indicando que entendia o que ela queria dizer). Pois é, eu já não aguentava mais ele falar isso pra aquela homaiada no bar e todo mundo ficar rindo de mim. Já tinha vergonha até de sair de casa, porque eu achava que todo mundo que me via sabia daquilo e ia rir de mim, pensando, olha lá, lá vem a larga. Quando eu te contei isso, você me disse: menina, deixa de ser boba, pensa o contrário, ele tá disfarçando pra te enganar e você não perceber, não é você que é largar, o p. dele que é fino. Eu regalei os olhos, meu Deus, será?! E você falou com tanta certeza que era, parecia até que você conhecia ele. Eu fiquei pensando, auai, ela é estudada, é professora e tá falando, deve ser verdade. Aí, no domingo, eu fui no bar e ele tava lá com os amigos dele bebendo e quando me viu foi logo zombando de mim, com essa história de larga, e todo mundo riu, achando bão. Eu olhei ele bem dentro dos olhos, parecia que num tinha mais ninguém ali, olhei bem firme e falei, num tempo só, eu num sou larga coisa nenhuma, seu p. é que é fino, se fosse grosso, como p. de homem, não sobrava. Engraçado, a graça acabou, todo mundo calou e eu acordei no Cais do bairro, toda dolorida, cheia de curativo.
ilustração Manara Em: <http://xicosa.folha.blog.uol.com.br/>.


Gente do céu! Eu terminei de ouvir essa parte com o corpo mole, queria que o chão se abrisse e me engolisse. Olha o tamanho da minha irresponsabilidade, o tanto que eu fui inconsequente. Nesse momento, já me lembrava em detalhes daquela mulher, realmente, ela sumiu do salão, ninguém contou porque, depois, eu me mudei de bairro, nunca mais voltei ao salão, não tive mais notícia dela. Enfim, tudo o que eu queria era sumir dali. Mas, ela continuou.
Olha, quando eu cheguei em casa, acredita que o vagabundo tava lá?! Pois tava! Parecendo um sapo de tão inchado. Eu olhei pra ele e falei bem assim: o que que ocê tá fazen’aqui? Ele respondeu, sem nem me olhar: eu moro aqui, uai, esqueceu? Falei: Não, quem esqueceu foi você, você que num tá lembrando quem é que paga cada centavo das contas dessa casa. Por acaso, você paga alguma conta aqui? Quando foi a última vez que você trouxe algum dinheiro pra dentro de casa? Eu nem me lembro. Sabe quem paga as suas roupas, os seus sapatos e as cachaças que você bebe no bar, rindo de mim, fazendo chacota de mim no bar? Pois é, acho que quem esqueceu de tudo aqui foi você. Fiz ele saí de casa naquele dia, naquela hora. Ah, sê besta, sô, além de viver às minhas custas, até a cachaça dele era eu que pagava, fazendo unha por unha das clientes, que eu num tinha estudo, num tinha renda, num nasci rica, ainda ria de mim e querer me bater do jeito que ele me bateu... Não, sô, tá pra nascer o macho que vai me bater e ficar por isso mesmo. Lá no hospital mesmo a delegada me atendeu e me contou da Maria da Penha. Denunciei ele. Denunciei e tá denunciado! Agora, eu tô é bem. Meu dinheiro dá e sobra, tô estudando, namorando (rindo), tô muito bem! E eu agradeço muito a você que me abriu o olho. Mas, e você, como está? Eu me lembro que seu casamento também era muito ruim, você vivia doente, triste, você tá tão bonita! Tá tudo bem, né?

(Nossa! Que alívio! Ufa!) Sim, meu casamento era péssimo! Consegui me separar, já tem sete anos que me separei, estou muito bem. Ela me perguntou se eu tinha me casado novamente, respondi que não, de jeito nenhum. “Agora, só tico tico no fubá?” (rindo), perguntou ela e eu respondi afirmativamente. Nós nos abraçamos novamente, um abraço diferente, choramos uma no ombro da outra, um choro de entrega, de cumplicidade, de afetividade, um abraço demorado de despedida e de gratidão, de sincera gratidão. Ela se foi, leve, suave e serena. Eu fiquei ali, pensando, refletindo sobre nosso desbertolezamento mútuo.



Quaresma: "os dias grandes"

Quaresmeira roxa
Quaresma deriva de quarenta (40), um número simbólico na bíblia, o livro sagrado dos cristãos, e representa um período contado em dias ou anos, que marca um acontecimento importante. Por exemplo: o dilúvio (a limpeza do mundo) durou 40 dias, Moisés passou 40 dias no Monte Sinai, Jesus ficou 40 dias no deserto antes de iniciar sua missão, o povo de Israel peregrinou por 40 anos no deserto etc. Quaresma, como a conhecemos atualmente, é a designação do período de 40 dias que antecede a principal celebração do cristianismo: a Páscoa (passagem), a ressurreição de Jesus Cristo, celebrada desde o século IV. A quaresma começa na quarta-feira (quarto dia) de cinzas, fim do carnaval, a festa da carne, e termina no domingo de ramos, penúltimo domingo dos 40 dias (5º ou 6º domingo), um domingo antes do domingo de páscoa. As cinzas da quarta-feira de cinzas simbolizam a mortalidade do corpo e a imortalidade da alma. Durante a quaresma, a igreja se cobre de roxo, a cor do sofrimento, da dor e da tristeza, no cristianismo. Por toda essa simbologia e teia de significação ritual, na minha infância, a quaresma era um período de temor. A semana santa, mais temida ainda, era chamada de "os dias grandes". Como era longa a quaresma e como eram longos os dias da semana santa! Na minha cabeça, a semana santa era maior que toda a quaresma. 

Durante a quaresma, quem tivesse criança pagã em casa não podia apagar a lamparina à noite. Se a criança pagã ficasse no escuro, o lobisomem ou capeta a carregava. Nessas casas, a lamparina passava a noite toda acesa, durante a quaresma inteira. Então, quando víamos a casa quietinha, todo mundo dormindo e luz acesa, já sabíamos: deixaram chegar a quaresma sem batizar algum filho. As famílias mineiras diziam: isso é coisa de baiano, baiano não importa com os sacramentos da igreja, deixa os filhos correr risco de ser carregado pelo lobisomem. As famílias baianas diziam: deus é deus, é mais que igreja, padre num é deus! Mesmo assim, deixavam a lamparina acesa, vai entender. E seguiam, mineiros e baianos, de quaresma em quaresma, um apontando o dedo pro outro. Na minha casa, era metade de um e metade de outro, então, na quaresma, havia sempre lamparina acesa e briga. 

Entre nós, a meninada, independente de ser mineiro ou baiano, não sabíamos o que era isso, era só medo! Tudo que fazíamos na quaresma atraía alguma coisa muito ruim, era só esperar que o castigo vinha do céu, porque deus, ah, esse só perdoava os adultos; criança haveria de ser tudo massacrada por deus, no sábado de aleluia, igual ao Judas. Os adultos nos assustavam com deus e com o diabo, do mesmo jeito e na mesma medida. Para mim, não havia diferença entre deus e o diabo. Eu tinha medo dos dois, do mesmo tanto que tinha medo do pai e da mãe. Na verdade, nem deus nem o diabo nunca me bateram nem me maltrataram como o pai e a mãe fizeram, então, acho que até o diabo tava na vantagem comigo. Agora, né! Porque na infância, era só medo, de tudo e de todos. 

Depois, quando finalmente parece que ia acabar a interminável quaresma, chegava a semana santa, "os dias grandes", dias maiores que a quaresma inteira. Quem se chamasse Maria não podia pentear o cabelo, os homens não faziam barba, a casa não era varrida, não podia maltratar criação, não se abatia cria nem para comer, não podia falar alto, xingar, então... nem pensar! Aí, começavam também as promessas (ou ameaças?!), afinal, tudo era proibido: Espeeera! Deixa só a leluia chegar! Quero tirar o couro docêis na leluia... Vou tirá a leluia docêis. A raiva do mundo, armazenada durante quarenta dias, era descarregada no mais fraco: as crianças, os/as filhos/as. Os homens iam tirar a aleluia nas esbórnias, nos cabarés, o que aumentava ainda mais o ódio das mulheres. Sobrava pra quem? Pros mais fracos: os/as filhos/as. Ah, meu Deus! Os dias grandes eram grandes e temidos, mas quando chegava a aleluia, nosso desejo é que os dias grandes não tivessem terminado.       

Confissões na adega da esquina


Foi-me ensinado que eu deveria ser boa menina e que ser boa menina era ser obediente e educada. Assim sendo, eu ganharia presente de papai noel no natal.
Fui boa menina. Não vi papai noel, não ganhei presente no natal!
Foi-me ensinado que deveria ser boa filha e que ser boa filha era ser obediente, educada e estudiosa.
Assim sendo, eu seria querida, amada e ganharia presentes de aniversário e de natal.
Fui boa filha. Não ganhei presente de aniversário nem de natal! Não recebi cuidados nem amor...
Foi-me ensinado que deveria ser boa aluna e que ser boa aluna era ser obediente, educada, estudiosa e ter boas notas.
Assim sendo, seria admirada, respeitada e bem sucedida.
Fui boa aluna... Nem admiração nem respeito nem nada! 
Foi-me ensinado que deveria ser boa moça, pra não ficar mal falada, pra arrumar bom casamento; e que ser boa moça era ser obediente, educada e prendada...
Já tava ficando cansada, já não acreditava em mais nada, mas tentei...
Fui boa moça. Até veio o casamento, mas não o bom casamento...
Foi-me ensinado que deveria ser boa esposa e que ser boa esposa era ser companheira, cuidadosa, sempre pronta, sempre junto.
Assim sendo, teria um bom marido.
Bertolesa que sou, fui boa esposa.
O bom marido não veio!
Foi-me ensinado que deveria ser boa profissional e que ser boa profissional era ser ética, responsável e honrar os compromissos.
Agindo assim seria respeitada.
Assim procedi.
E descobri que não é o QUE nem o COMO eu faço.
É o que eu sou!

Espera

Disponível em: https://www.intelipoker.com/blogs/habofet/es-um-cacador-ou-a-caca.

Espera, em português, pode ser tanto verbo quanto substantivo. Considerando as práticas sociais da linguagem, 'espera' é um ato de fala. Por exemplo, quando a criança faz alguma arte e a mãe a olha e sentencia, brava: Espeeera! A criança entende que vai receber algum castigo. Quando alguém faz algo de ruim para outro/a e essa pessoa olha de esguelha e lhe diz: Espera  procê vê! A autora ou o autor da ruindade sabe que vem troco. A 'espera', ainda como verbo, referencia a qualidade de quem tem paciência, conforme indica o ditado popular: quem espera sempre alcança. Numa contra-leitura, para desnaturalizar a acomodação e estimular a práxis social (ação, atuação), o compositor diz: quem sabe faz a hora, não espera acontecer. 'Esperar", aqui, já não é qualidade, é defeito. A 'espera', como substantivo, remete a uma prática cultural, uma forma de obtenção de alimentos e, nesse sentido, é memória. Uma memória viva, vívida na minha memória de sertaneja nativa e andarilha dos cerrados de Goiás. Como eu me lembro, e com saudade, dos meus tios, indo pra espera! A espera é diferente da caçada. Meus tios, às vezes, iam também pra caçada, mas preferiam, de longe, ir esperar. Na caçada tem perseguição, embate, combate,  luta física; na espera, só o abate. A presa, na caçada, tem mais chances de sobrevivência do que na espera. Na caçada, a presa aprende a traçar rotas de fuga, que são as mesmas rotas de perseguição. O instinto de sobrevivência da presa torna a perseguição criativa e abre sempre novas rotas de fuga. Na caçada, há movimento, barulho, estampido, farfalhar. A presa perspicaz percebe que está sendo perseguida e se defende, atacando, lutando, encontrando saídas, fugindo. Na espera, a presa não tem chances de defesa, sua única defesa é a falha do algoz. A espera é uma arte em que apenas uma das partes no jogo conhece os movimentos das duas partes. O silêncio é o aliado do esperador e a perdição da presa. Não há perseguição: a luta e o embate são silenciosos, entre a paciência da espera e a chegada ou não da presa. A presa (a vítima), ao chegar no campo da espera, poderá ser perspicaz o bastante para não se posicionar como alvo. A vítima em potencial tem os sentidos aguçados (ouvidos e faro atentos), essa é sua defesa. Contra isso, o esperador põe armadilhas, como arapucas e aratacas. A espera é um jogo de paciência, perspicácia e agilidade de ambos os lados. A presa está em desvantagem por não saber que está sendo esperada, e o esperador tem a vantagem de estar na tocalha à espera, sem que sua presa o saiba. Essa é uma luta mais desigual que a caçada. É preferível a perseguição! De qualquer forma, nas duas lutas, é fundamental conhecer e estar atento aos mistérios da arena que é o sertão. Na silenciosa e árida arena, que é o sertão, o esperador (o homo cerradenses) é ressabiado, homem desconfiado, calado, observador e atento, pronto para abater sua presa tão logo ela apareça em seu campo de visão. A pontaria tem de ser precisa, é um tiro só, não pode errar, porque, senão, espanta o bicho; e se o bicho embrenhar no mato, 'cabô', nem ele nem outro, não vem mais nada, por causa do barui do tiro! A perseguição, na caçada, é perceptível. Já na espera, só um bicho muito perspicaz, com sentidos muito apurados, pode sentir o perigo na respiração do homem. 

E eu ali, quietinha, sentada no chão batido, no canto da sala, caladinha, quase nem respirava, sentindo o coração bater forte, no pescoço, perto do ouvido, escutando as histórias das caçadas e das esperas. Assim, quietinha,caladinha, ninguém me percebia, eu podia ficar na espera, escutando, senão... se me percebessem... a espera podia virar caçada.

Mas... e a tireoide, Doutora?!

Boooom diaaaa!!! Tudo bem?
Bom dia. Mais ou menos, né...
Vou preencher sua fichinha, senta, meu bem. Primeira consulta com a Doutora?
Sim. Eu trouxe os exames, a ressonância, a ultrassom...
Quem te indicou, queridinha?
....
Então... A Doutora tá numa outra consulta, enquanto isso, eu vou tá verificando seu peso e suas medidas. Você toma algum medicamento? Não. Ok. Vem aqui, por favor... Suba na balança... Assim... Nossa!!! Ok. Pode descer. Em pé, aqui. Vira. Assim. De novo. Levanta os braços. Vira novamente. Mãozinhas na cintura. Nossa! Ok. Faz atividades físicas? Nããããwwww!!!!!! Céus!!! Como você sobrevive, menina?! Com esse peso todo! Ok. É só aguardar, tá.
Eu tenho uma dúvida....
Tá bom, queridinha, a Doutora já tá vindo, tá. É só aguardar. Você aceita uma água, um chá ou um café?
Não, obrigada.
[Duas horas depois] Oláááá! Bom diaaaa!!!
Bom dia, Doutora.
Só um minutinho, preciso ir ao banheiro, depois tomar água e um suquinho verde, já tá na hora do meu detoxzinho, né, Meire, querida?
Sim, Doutora, já está aqui, seu detox.
[Meia hora depois] Então, querida, o que a traz aqui na endócrino?
Pois é, Doutora, estou com um nódulo na tireoide...
Nooooosa! Que sério!!! Gravíssimo!!! Estou vendo aqui na sua ficha. Menina, você está muito acima do peso, né... Veha cá, deite-se aqui...
...então, eu trouxe aqui os exames que já fiz...
Deite-se, assim, bonitinha, assim, quietinha, em silêncio, engula, respire, engula, respire, levante-se...respire novamente... Ah, não, mas não trouxe nem um hemogramazinho pra mim?! Vou ter de pedir... tá bom?! Vai ter de fazer furinho no bracinho, tá, pra fazer hemograma. Temos de ver como está seu quadro, tá bom, meu bem? Venha, sente-se aqui.
...então, como eu estava dizendo, né, tem a ressonância e a ultrassom, a senhora não quer ver?
Ah, bobagem, isso é bobagem. Olha, vamos ter de fazer uma adequação de peso, reduzir essas medidas, né, você tem seios muito grandes, cintura muito farta, barriga muito redonda... Daí, você faz todos esses exames aqui, seu plano cobre todos, pode ficar tranquila, só não cobre mesmo a consulta, mas os exames cobre. Faz tudo, traz os resultados pra mim, vamos avaliar tudo e começar sua adequação de peso o mais urgente possível, porque sua situação é grave, é muito grave.
Eu tenho uma dúvida...
Faça os exames, sem os resultados dos exames não posso dizer nada. Quando tiver os resultados, marque o retorno com a secretária e volte, tá queridinha, demora, não, meu bem, já tô com saudaaaade. Bjssss.
Mas.... e a tireoide, Doutora?

A mulher e o garoto

Aconteceu no terminal da Praça da Bíblia. Enquanto eu bebericava um delicioso suco de uva natural, artesanalmente fabricado no vinhedo de Itaberaí, cheguei até a janela para dar uma olhadinha no que acontecia no mundo. Lá estava uma mulher discutindo com um garoto. Ela, loira, alta, esguia, com aparência de mais ou menos 35 anos de idade (esse tipo de informação é fundamental, claro), trajava um vestido longo, estampado, com fundo em amarelo, trazia em uma das mãos uma sacola plástica da C&A. Ele, moreno claro (no Brasil, temos essas gradações), meio pálido até, alto, magro, muito magro, aparentando mais ou menos uns 17 anos de idade, vestia ainda o uniforme do colégio. Ela gesticulava, gesticulava, ele também, ambos no mesmo ritmo de gesticulação, parecendo reproduzir com as mãos o mesmo ritmo da fala. Brigavam? Parece que sim. Ela esbravejava e ele a enfrentava, a mesma altura. De repente, ela lhe entrega algo, acho que era dinheiro, ele pega sem olhar, nem pra ela nem pro objeto. Discutem mais… brigam, ela esbraveja e ele não deixa por menos, esbraveja também, segurando o dinheiro, devia ser dinheiro mesmo. Eles começam a se retirar do local, tomando direções opostas, ele, mancando, em direção à saída do terminal e ela à entrada, sem mancar. Ela se volta, diz algo, ele se volta e responde, no mesmo tom de gestos, é tudo que posso perceber. Ele vai pra saída, mancando muito, sai. Ela se dirige à entrada. Entre eles, a grade amarela e suja de olho escuro do terminal, ela de lá e ele de cá, continuam brigando, ela está muito brava, ele retruca sem olhá-la. Ele manca até se afastar da grade, ela entra no terminal. Ele atravessa a rua e chega à praça do rato de praça, ganha a rua e some do meu campo de visão; ela se mistura à multidão no interior do terminal, segue em frente, cabeça baixa, sacola plástica da C&A na mão, segura firme e vai… some e aparece até que atravessa para o outro lado e desaparece do meu campo de visão. Para onde foi ele? Para onde foi ela? Por que brigavam? Para que era o dinheiro (dinheiro??) que ela deu pra ele? Por que deu dinheiro a ele? Nunca vou saber, mas foi legal observar enquanto bebericava meu suco de uva, trazido lá de Itaberaí.

Retrato

vem sim
ah vem
se vem
espera 
preparo 
preparo da espera
ansiedade
lábios secos
rosto afogueado
peito arfante
sudorese
cinta-liga 
langerie
excitante
cabelos soltos
esvoaçantes
maquiagem 
perfume inebriante
bilhete perfumado 
papel florido assinado com baton
música suave lenta
vinho maduro
corpo vibrando
falta o ar
pernas tremulando
************
ah não vem mais! 
lábios decaídos sem vida
rosto sem cor 
sem calor 
sem forma
langerie sem liga 
cai
face sem liga 
enruga
cabelos embranquecidos
murchos
papel amarelado 
borrado de batom
lembranças da canção antiga
vinho acre ocre avinagrado
corpo amargurado
alma amarga
avinagrados
pernas sem movimento
e o coração… coração? 
(des)esperança de tanta espera... 

Ausência

ainda posso sentir seus lábios queimando minha pele…
…ardendo
ardência
ardente
vibrando
tremulando
te buscando
voluptuosa sensação estonteante de volúpia
rigidez e calor
corpo no corpo
enrijecidos
suor
calor
calafrio
tremor
busca frenética
ansiosa
elos virtuais
algemas reais
corpo aprisionado
lábios nos lábios
famintos
sedentos
loucos
Afastamento
distanciamento
aprisionamento
desprezo
clausura
soltura
silêncio
mudez
solidão...

Balet de libélulas

Luz  Sol  arco-írisSol e Chuva
Casamento de viúva
Arco-íris pote de ouro
pote de barro
Brilho do sol
olhar profundo
Luz noturna
olhar soturno
cegueira

Luz brilhante irresistível
caminho da morte
Janus e alces
medusas
narcisos
marias madalenas
Midas?
                        Midas!
                                            Midas.

Ícaros do acaso
“sobreviventes emocionais”
e a luz… é o caminho da morte
pote de ouro
 pote de barro
brilho da noite
vala profunda
do corpo
da alma

Homem feminino


O homem feminino é forte

é másculo e atraente

é um homem como outro qualquer

mas é único… 
singular

O homem feminino é educado

sensível e sem vergonha:
não tem vergonha de chorar

nem de sofrer 
nem de amar

Não tem vergonha de ser
nem de estar

não tem vergonha de sentir
nem de se mostrar

O homem feminino não precisa ser grosseiro
não precisa ser sujo
nem ser canalha
ele não é cafajeste
nem vampiro
não se esconde por trás de mentiras
não é um HGM
nem precisa ser
O homem feminino não precisa provar nada a ninguém
              ele é ele quer ele faz
Faz porque quer 
Faz porque é

Porque é o verdadeiro homem de verdade



Inconstância

recomeçar é preciso 
é urgente 
é necessário 
é premente
não há nada pior que a mesmice
empalhamento da alma
fossilização da vida

Passagens

Crepúsculo

Risos sorrisos risos
sonhos radiantes alegres esperanças descomprometidas esperanças alegrias lábios abertos olhos brilhantes o brilho estonteante o olhar intenso profundo alcançando o infinito almejado
planos projetos planejamentos
sem perder jamais o sonho
esperança otimista realista
olhar firme no presente no real
alcançando o finito conhecido
sonho real da realidade sonhada
olhar perdido num infinito sabido conhecido
olhar de sabedoria
a sabedoria a iluminar o sonho do riso
o riso sonhado sonhando o sonho sábio
 Sorrisos não risos apenas sorrisos
sem perder jamais o sorrir
 Lábios cerrados
sorriso da alma


Opúsculo

Nasci
em uma tarde de dor nasci
não era para ser mas foi
insisti
 Obstáculos e lutas
portas semi-fechadas
janelas semi-abertas
abri
 Cresci
pouco mas cresci
não era para ser mas é
insisti
 Passagens estreitas
fechaduras emperradas
o contrário e o contra
venci
Fui vencida
muitas vezes abatida
mas Fênix que sou
muitas vezes erguida
insisto ainda

Identidade

Minha alma negra
de índia goiana
meu sangue latino
de mineira baiana
Na classe operária
servidora a serviço do servo
se negra pálida ou branca
pouco importa
Sou morta mulher
femina que jaz fêmea
diluída na maternidade
desaparecida na Pós-Modernidade
 Peça da engrenagem da globalização
um voto a mais na eleição
um corpo a mais
inerte na escuridão
 Quem sou eu?
Onde estou?




Entardecer no Carretão


O sol tá entrando...
a serra dourada parece um lençol de ouro
a passarada procura seu canto
a mata prepara a cama
no terreiro o Bimbo rola na terra solta
alegre brinca com a bola de meia surrada
o loro repete os comandos da patroa detrás da casa
lá na cozinha a janta tá quase pronta
o alho refogado perfuma o ar
coloque um LP pra tocar na vitrola
se preferir apenas ligue a radiola
ou sente-se no alpendre e pontilhe uma moda na viola...

Cromoidentidade


Aqui nessa terra tem de tudo um poco
se quisé prová é apiá e ispiá
tem forró e catira
quadrilha do São João
novena pra Santo Antonho
(sinão Maria num casa não)
(e Zé Luiz fica pra São Roque)
tem andor e procissão
lavora prantada na stação
verde que só vendo
e o ouro... num cabô não
nóis fala ocê fii e berada do rii
assim... beraniiim da cerca

nóis abraça quem nóis gosta
e fala mal de quem nóis desgosta
nossa casa é casa de amigo
nossa mesa é farta... sem pirigo
e quem chega em bo'ora
pode entrar sem batê
e se sentá mais nóis pra cumê
nóis bebe café com bolo de fubá
milho cuzido
milho assado
pamonha
canjica
cural

tem gengibre aúfa no quintal
nóis come quiabo e pimenta bode
gueiroba com arroz
arroz com pequi
frango com açafrão
viche Maria! tudo nosso é marelo dimais, irmão!
mais da tiriça e da febre marela
nóis é varcinado
e corre um leguado
que nóis num qué virá finado

Passagem


Sentada quieta silenciosa
do fundo do alpendre
avista a vida lá fora

Não ri nem chora

Balançando na rede de fibra crua
atravessada na varanda
contempla a vida na rua

Que sina a sua!

Guiando o carro
entra na garagem
exausta da vida

Vida corrida!

Fumando descontraída
de pé na sacada do apê
admira a lua sobre a cidade adormecida

vive a vida

Encantamento

O Beijo da Merrow, de Liza Paizis (Criada por Ictoon)
  http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/Sereias
Canto 
medo e atração
canto de morte
do guerreiro em sacrifício  
libélula seguindo a luz
ânsia de fugir...
mais forte é o desejo de seguir
seguindo perde-se a rota 
muda-se a direção
marinheiro em alto mar 
desamparado
sem bússola e sem norte: 
Belém Moçambique ou Calicute?
no Tormentas os gigantes
marinheiro enfeitiçado
guerreiro amaldiçoado
libélula encantada
zumbido magia feitiços 
a libélula por inconsciência 
o guerreiro por medo
a navegante com consciência, 
medo e desejo
tempestades arteriais 
sudoreses matinais
respiração pausada entrecortada
falta o ar
sucumbe a razão
alucinação
a bússola é a única salvação 
nesse mar revolto 
prenhe de adamastores 
ninfas 
nereidas
nau frágil em deriva errante
naufraga...
naufrágio da navegante

Per sonare


Quantas eu sou? 
Quantos você é?
Eu me publico, me reparto e me multiplico: 
uma persona para cada ato muitos atos para várias situações... 
Personagens voláteis criando mundos 
imaginando emoções 
veritando ilusões.
Quem fala através de mim? 
Através de quem eu falo?
Meu discurso mudo grita de revolta ri da dor... 
Ressonância profunda da alma soa através do corpo... 
A glote trava a voz ressoa teimosa e muda... 
Mundo cenário das ilusões personificadas...
Persona 
per sonare 
persona 
Para cada situação um ato 
para cada ato uma persona...
Não somos  indivíduos 
Nunca o fomos 
Nunca o seremos 
Personas somos